A história escondida das defesas da cidade
Lisboa é muitas vezes descrita como uma cidade construída sobre sete colinas. Mas muito antes de essas colinas se tornarem miradouros, ruas e bairros, faziam parte de outra coisa: uma paisagem defensiva.
Durante quase dois mil anos, Lisboa foi mudando repetidamente a forma das suas muralhas.
Algumas foram construídas pelos Romanos. Outras foram criadas ou transformadas durante o domínio muçulmano. E no século XIV, à medida que a cidade medieval se expandia muito para além dos seus limites antigos, foi construído, durante o reinado de D. Fernando I, um circuito defensivo muito mais amplo.
Hoje, as muralhas quase desapareceram da paisagem.
Mas não desapareceram completamente.
Sobrevivem em lugares inesperados: por trás de edifícios modernos, no interior de hotéis e lojas, entre casas, ao longo de ruas estreitas e até na própria forma da cidade.
E quando começamos a procurá-las, Lisboa começa a contar uma história diferente.
A primeira muralha: uma Lisboa romana

Uma muralha romana tardia, construída entre o final do século IV e o início do século V, hoje preservada no interior de um hotel moderno em Lisboa.
A muralha mais antiga desta história remonta aos últimos séculos do Império Romano.
Esta era uma Lisboa muito diferente daquela que conhecemos hoje. A cidade ainda era conhecida como Olisipo, e a sua posição junto ao Tejo fazia dela um importante centro urbano na extremidade ocidental do mundo romano.
No final do século IV ou início do século V, a cidade precisava de defesas mais fortes. Foi então construída uma nova e substancial muralha em torno do núcleo urbano, incorporando ou substituindo estruturas defensivas anteriores.
Um fragmento desta muralha sobrevive hoje no interior do Áurea Museum Hotel.
É um lugar extraordinário para encontrar a Lisboa antiga: não num parque arqueológico ou num monumento isolado, mas dentro de um edifício moderno, onde a muralha simplesmente continuou a fazer parte da cidade.
Quase dezassete séculos depois, Lisboa continua construída à sua volta.
A muralha moura: uma cidade dentro das muralhas
A muralha romana não desapareceu quando o domínio muçulmano chegou a Lisboa.
Depois da conquista da cidade no século VIII, o seu sistema defensivo foi adaptado, reparado e ampliado. Ao longo dos séculos seguintes, Lisboa desenvolveu-se como al-Ushbuna, uma cidade muçulmana cujo núcleo fortificado ocupava a colina sobranceira ao Tejo.
É a que habitualmente chamamos Cerca Moura, ou Muralha Moura.

Um troço sobrevivente da Cerca Moura junto às Portas do Sol, sobranceiro a Alfama e ao Tejo.
As muralhas não eram simplesmente uma barreira que separava Lisboa do mundo exterior.
Elas moldavam a cidade no seu interior.
As ruas estreitas de Alfama, as encostas íngremes e as surpreendentes diferenças de nível são, em parte, herança de uma cidade que se desenvolveu dentro e em torno de limites fortificados.
E as muralhas nem sempre eram destruídas e reconstruídas de raiz. Muitas vezes, os construtores posteriores incorporavam aquilo que já existia.
É por isso que a história das defesas de Lisboa não é uma simples sequência de três muralhas distintas.
É uma história de camadas.

Camadas da história de Lisboa em Alfama: a muralha romana em baixo, a construção moura por cima e um edifício manuelino erguendo-se sobre ambas.
Aqui, as camadas tornam-se quase palpáveis.
Em baixo estão os vestígios do sistema defensivo romano. Por cima, a construção posterior do período muçulmano incorporou e adaptou aquilo que já existia.
Uma cidade nem sempre apaga o seu passado. Por vezes, constrói sobre ele.
Portas, postigos e a cidade medieval
Uma cidade fortificada precisava de mais do que muralhas. Precisava de entradas.
A Cerca Moura tinha grandes portas por onde podiam passar pessoas, animais e veículos, mas tinha também aberturas muito mais pequenas destinadas aos peões. Estas pequenas entradas são conhecidas como postigos.
Um deles sobrevive em Alfama.

O Postigo da Conceição, uma das pequenas entradas pedonais através da antiga Cerca Moura de Lisboa.
Estas pequenas aberturas podiam ter um efeito surpreendentemente duradouro na cidade.
Na parte sul de Alfama, algumas das antigas entradas através das muralhas transformaram-se em passagens e escadarias que ligavam a parte baixa da cidade ao bairro situado acima.
O que começou como uma necessidade defensiva acabou por se tornar parte da estrutura urbana de Lisboa.
A muralha desapareceu, mas a passagem permaneceu.
A muralha que tornou Lisboa maior
No século XIV, Lisboa tinha ultrapassado as suas antigas fortificações.
A cidade tinha-se expandido muito para além dos limites do antigo núcleo medieval, e a situação política tornava cada vez mais urgente a construção de novas defesas.
Entre 1373 e 1375, durante o reinado de D. Fernando I, Lisboa adquiriu um circuito defensivo muito mais amplo: a Cerca Fernandina.
Abrangia cerca de 103 hectares — mais de seis vezes a área encerrada pela antiga Cerca Moura — e estendia-se por aproximadamente 5,4 quilómetros.
A nova muralha alterou a geografia de Lisboa.
Atravessava zonas que hoje parecem completamente desligadas da ideia de uma fortaleza medieval.
Uma delas é o Martim Moniz.

A partir do Martim Moniz, ainda é possível imaginar a linha da Cerca Fernandina a subir em direcção à Mouraria e à Torre de São Lourenço.
Olhe para cima, do Martim Moniz em direcção à Mouraria, e a topografia começa a revelar a lógica das antigas defesas.
A muralha atravessava o vale e depois subia a encosta, acabando por se ligar às estruturas fortificadas mais antigas na parte alta da cidade.
A cidade moderna cresceu à sua volta, mas as colinas ainda guardam a memória do percurso da muralha.
Quando a muralha se torna quase invisível
Alguns troços da Cerca Fernandina são surpreendentemente difíceis de encontrar.
Outros estão escondidos à vista de todos.

No interior de um moderno centro comercial, perto da antiga Porta de Santa Catarina, sobrevive, protegido por vidro, um enorme fragmento da muralha do século XIV.
Dificilmente os arredores poderiam ser mais diferentes dos da Lisboa medieval.
Lojas, escadas rolantes e arquitectura moderna substituíram as casas e as ruas que aqui existiam.
E, no entanto, a muralha permanece.
É um lembrete de que a história de Lisboa nem sempre se encontra em monumentos deliberadamente preservados como monumentos.
Por vezes, é simplesmente aquilo que se recusou a desaparecer.
A antiga Porta de Santa Catarina era uma das entradas importantes da secção ocidental da Cerca Fernandina, construída entre 1373 e 1375.
Três muralhas, uma Lisboa
Uma muralha romana, uma muralha moura e uma muralha fernandina.
Três sistemas defensivos, construídos em séculos diferentes, por governantes diferentes e por razões diferentes, mas pertencentes à mesma cidade.
E, extraordinariamente, ainda hoje podemos encontrar vestígios dos três.
Podem ser monumentais, quase invisíveis ou até estar enterrados sob edifícios modernos.
Por vezes transformaram-se num elemento de um centro comercial no Chiado, no interior de um hotel ou numa escadaria em Alfama.
É isso que torna as muralhas de Lisboa tão interessantes: não são simplesmente ruínas.
São camadas da cidade.
E quando aprendemos a vê-las, a própria Lisboa transforma-se numa espécie de mapa arqueológico — um mapa onde a Lisboa romana, muçulmana e medieval continua silenciosamente presente sob a cidade moderna.
Três muralhas.
Uma Lisboa.
Leitura adicional
Pode explorar mais sobre o antigo sistema defensivo de Lisboa no site oficial do Castelo de São Jorge.

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