Ouro sobre Azul

O Barroco em Lisboa, entre azulejos, ouro e algumas histórias surpreendentes

Há igrejas em Lisboa onde não sabemos bem para onde olhar.

Há ouro por todo o lado. Azulejos azuis e brancos. Mármore colorido. Anjos, santos, flores, colunas, pinturas…

E, quando pensamos que já vimos tudo, descobrimos mais um pequeno detalhe.

É essa uma das coisas mais fascinantes do Barroco português: as igrejas estão cheias de histórias — algumas inesperadas.

Porquê ouro sobre azul?

Interior do Convento dos Cardaes em Lisboa, com azulejos azuis e brancos e talha dourada.
Azulejos azuis e brancos e talha dourada: uma das combinações mais características do Barroco português.

No Convento dos Cardaes encontramos uma combinação que parece feita para dar nome a este artigo: azulejos azuis e brancos e talha dourada.

“Ouro sobre azul” é uma expressão usada em Portugal quando algo bom se torna ainda melhor.

O azul e branco das paredes encontra-se com o ouro da madeira esculpida. Entre eles aparecem pinturas, mármores e esculturas.

Mas há uma coisa que vale a pena perceber: o azulejo e a talha não estão ali apenas para decorar, estão ali para contar histórias.

Numa época em que poucas pessoas sabiam ler, uma igreja podia ser quase um enorme livro de imagens.

Quando as paredes começam a falar

No Convento da Graça, alguns dos grandes painéis de azulejos contam episódios da história dos agostinianos, incluindo as viagens dos seus missionários e a propagação da sua fé em terras distantes.

De repente, o visitante deixa de estar simplesmente diante de uma parede azul e branca.

Está perante uma história.

Nesta cena, um grupo de missionários participa no baptismo de novos convertidos. No centro da composição, a grande pia baptismal torna-se quase uma personagem da própria história.

Painel de azulejos da Sala do Capítulo do Convento da Graça, em Lisboa, representando uma cena da actividade missionária agostiniana.
Na Graça, os azulejos contam histórias de missionários, viagens e martírios.

É uma imagem de uma viagem que começa muito longe de Lisboa e termina, simbolicamente, junto daquela pia baptismal.

E é precisamente isso que torna estes azulejos tão interessantes: não mostram apenas santos e religiosos. Mostram pessoas, lugares e acontecimentos que, para quem os encomendou, faziam parte de uma história que se estendia muito para além das paredes do convento.

E talvez seja esta uma das melhores formas de olhar para o azulejo antigo: não como papel de parede, mas como uma história contada em imagens.

E que mundo distante aparece nessas paredes!

África, Ásia, Médio Oriente…

O azul e branco podia levar o mundo inteiro para dentro de uma igreja.

E depois vem o ouro

Se os azulejos contam histórias, há igrejas onde a talha dourada praticamente toma conta do espaço.

Capela de Nossa Senhora da Doutrina na Igreja de São Roque, em Lisboa, revestida de talha dourada e mármore.
Talha dourada, mármore e escultura numa das expressões mais exuberantes do chamado “Estilo Nacional”.

Na Capela de Nossa Senhora da Doutrina, em São Roque, a madeira dourada cobre paredes, altar e abóbada.

A própria capela é descrita como uma composição barroca de “Estilo Nacional”, criada entre 1680 e 1695.

Mas talvez não seja preciso saber nada sobre estilos artísticos para perceber o que temos à nossa frente.

O ouro, o mármore e as esculturas parecem formar uma única coisa.

E é aqui que percebemos uma das características curiosas do Barroco português: em vez de escolher entre arquitectura, escultura, pintura ou decoração, juntava tudo.

Os “pezinhos de anjo barroco”

E depois há os pequenos detalhes.

Pormenor de um anjo barroco em azulejos azuis e brancos no Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa.
Um pequeno anjo entre milhares de detalhes.

Em São Vicente de Fora, entre os grandes painéis de azulejos, encontramos anjos e putti — aqueles pequenos seres alados que aparecem constantemente na decoração barroca.

Alguns têm rostos muito sérios, outros parecem estar simplesmente a divertir-se, mas uns e outros têm uma coisa em comum:

Os “pezinhos de anjo barroco”.

Não é, evidentemente, uma expressão histórica. É apenas a nossa maneira de chamar a atenção para um daqueles pequenos pormenores que normalmente passam despercebidos.

E talvez seja exactamente isso que vale a pena fazer numa igreja barroca:

parar de olhar para o conjunto e começar a procurar os detalhes.

La Fontaine em azulejo

Painel de azulejos de São Vicente de Fora representando A Galinha que Punha Ovos de Ouro, de La Fontaine.
“A Galinha que Punha Ovos de Ouro”, uma das fábulas de La Fontaine representadas em azulejo em São Vicente de Fora.

Sim, o mesmo La Fontaine das fábulas que muitos de nós conhecemos desde crianças.

Existem em São Vicente de Fora 38 painéis com cenas das suas fábulas.

E há uma história curiosa por detrás deles.

As imagens foram inspiradas nas gravuras do francês Jean-Baptiste Oudry, que ilustrou as fábulas de La Fontaine.

Mas quem transformou essas imagens em azulejos foram os artistas portugueses.

Uma história francesa acabou, assim, numa parede de um mosteiro de Lisboa.

E entre as cenas encontramos “A Galinha que Punha Ovos de Ouro”.

É difícil imaginar uma imagem mais apropriada para aparecer num artigo chamado Ouro sobre Azul.

Mas o Barroco não era só azul e ouro

São Vicente de Fora mostra-nos ainda outra coisa.

Na sua sacristia, o azul dos azulejos dá lugar a uma profusão de mármore policromo, madeira, pintura e dourados.

Alt text: Sacristia do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, com mármore policromo, talha dourada e pintura.
Na sacristia de São Vicente de Fora, o mármore policromo junta-se à madeira dourada e à pintura.

É como se cada espaço tivesse encontrado a sua própria maneira de surpreender. Numa mistura de azul, branco, ouro ou mármore.

Uma arte feita de encontros

É também por isso que aquilo a que hoje chamamos Barroco português não nasceu isolado.

Nos Cardaes encontramos azulejos de origem holandesa.

Em São Vicente encontramos fábulas francesas transformadas em azulejo português.

Em São Roque encontramos mármores de influência italiana.

As imagens viajavam. Os artistas viajavam. As técnicas e os materiais também.

E Lisboa transformava tudo isso numa linguagem própria.

Talvez seja essa uma das coisas mais interessantes de descobrir nestas igrejas: por detrás de uma arte que hoje parece tão portuguesa, encontramos histórias vindas de muitos lugares.

E há sempre mais um detalhe

Talvez seja por isso que o Barroco continua a surpreender quem entra nestas igrejas pela primeira vez.

É a sensação de que há sempre mais qualquer coisa para descobrir.

Uma história escondida num painel.

Um rosto no meio da talha.

Um pequeno anjo.

Uns pés grandes.

Uma fábula de La Fontaine.

Ou simplesmente uma combinação de azul, ouro e luz que não esperávamos encontrar.

É preciso apenas olhar um pouco mais devagar.

E talvez seja essa a melhor maneira de descobrir o Barroco de Lisboa.


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